Existe uma frase que ainda aparece com surpreendente frequência: “eu não gosto de vinho brasileiro”.
Ela costuma ser dita com a mesma convicção de quem já experimentou uma categoria inteira e chegou a uma conclusão definitiva. Mas basta observar o tamanho que a produção nacional adquiriu para perceber que existe um problema nessa afirmação.
Dizer que não gosta de vinho brasileiro é cada vez mais parecido com afirmar que não gosta de comida brasileira. De qual? Mineira, baiana, gaúcha, amazônica, caiçara?
O Brasil possui hoje viticultura tradicional, tropical e de inverno, com diferenças relevantes de clima, altitude, manejo e ciclo da videira. Nessas regiões surgem espumantes, brancos leves, Chardonnay estruturados, rosés, tintos delicados, tintos potentes e experiências com variedades que muitos consumidores ainda sequer associam à produção nacional.
Talvez, portanto, você não desgoste de vinho brasileiro. Talvez tenha apenas provado alguns vinhos brasileiros dos quais não gostou.
A diferença parece pequena, mas muda tudo.
Uma opinião construída há muitos anos pode não servir mais
Existe uma questão geracional importante nessa percepção. Muitos consumidores tiveram contato com vinhos nacionais em um período no qual a oferta, a tecnologia e a diversidade eram bastante diferentes das atuais.
Uma ou duas experiências pouco interessantes foram suficientes para criar uma conclusão que atravessou décadas.
Enquanto isso, o setor mudou.
A produção de espumantes brasileiros conquistou reconhecimento. Regiões de altitude ganharam espaço. A Campanha Gaúcha ampliou sua presença. A dupla poda permitiu o desenvolvimento dos vinhos de inverno. Pequenos produtores começaram a explorar parcelas, variedades e técnicas que dificilmente fariam parte da paisagem algumas décadas atrás.
Até o conceito de origem tornou-se mais importante. O Brasil passou a desenvolver Indicações Geográficas ligadas ao vinho, reconhecendo oficialmente territórios e características produtivas.
Por isso, julgar a produção atual exclusivamente a partir de uma garrafa provada quinze ou vinte anos atrás é como avaliar um restaurante depois de ele ter trocado de chef, ingredientes e cardápio.
Talvez o problema nunca tenha sido o país
Imagine alguém que não gosta de taninos muito intensos. Se sua experiência com vinho brasileiro estiver concentrada em tintos pesados, a conclusão provavelmente será negativa.
Isso, porém, diz muito mais sobre a preferência pessoal do que sobre a origem do vinho.
Quem prefere tintos mais macios pode encontrar bons caminhos na Merlot. Quem gosta de frescor e elegância pode se interessar por Cabernet Franc. Marselan pode agradar quem procura fruta, estrutura e personalidade. Chardonnay aparece em estilos muito diferentes, com e sem madeira. Os espumantes brasileiros formam praticamente um universo próprio.
O mesmo raciocínio vale para região.
Um vinho de altitude não deveria ser esperado como reprodução de um vinho da Campanha. Uma Syrah de colheita de inverno possui contexto completamente diferente de um tinto produzido pelo ciclo tradicional no Sul.
Quanto mais ampla se torna a produção nacional, menos sentido faz a ideia de um único “gosto de vinho brasileiro”.
Existe também um preconceito de etiqueta
O mundo do vinho é fortemente influenciado pelo imaginário.
Bordeaux, Toscana, Rioja, Douro e Mendoza não são apenas nomes geográficos. São marcas culturais construídas ao longo de muito tempo. O consumidor se aproxima dessas garrafas esperando encontrar tradição, história e qualidade.
Quando uma garrafa brasileira chega à mesa, a expectativa nem sempre é a mesma.
Isso cria um fenômeno interessante. Um vinho importado pode receber o benefício da curiosidade: se parece diferente, talvez seja expressão do terroir. Já um brasileiro pode receber uma leitura mais severa: se parece diferente da referência internacional, talvez esteja errado.
Essa assimetria vem diminuindo, mas ainda existe.
E talvez uma das formas mais interessantes de superá-la seja justamente retirar a obrigação de que o vinho brasileiro imite alguma coisa.
A pergunta não precisa ser se determinado Syrah nacional parece um Rhône, um australiano ou qualquer outra referência.
Pode ser simplesmente: este vinho é bom? É equilibrado? Tem personalidade? Eu gostaria de bebê-lo novamente?
A partir daí, a nacionalidade deixa de funcionar como julgamento prévio.
Descobrir o vinho nacional exige experimentar sem procurar confirmação
Há dois modos de provar uma garrafa.
No primeiro, tentamos confirmar aquilo que já pensamos. Quem parte da convicção de que vinho brasileiro é inferior provavelmente encontrará algum detalhe para sustentar a tese.
No segundo, tentamos entender o vinho antes de classificá-lo.
Essa postura é muito mais interessante.
Em vez de comprar um único rótulo e utilizá-lo como representante de todo o país, vale explorar estilos diferentes. Um bom espumante. Um Chardonnay de região mais fria. Um Cabernet Franc. Um Syrah de inverno. Um Marselan ou um Tannat de produtor que trabalhe bem a variedade.
Não é necessário gostar de todos. Na verdade, não gostar também faz parte da construção de repertório.
O objetivo é descobrir do que exatamente você gosta e do que não gosta.
Essa precisão vale muito mais do que uma preferência baseada apenas no país impresso no rótulo.
Talvez o melhor momento do vinho brasileiro seja justamente este
Existe uma vantagem em acompanhar uma região vinícola já consolidada: séculos de história ajudam a explicar o que procurar.
Mas existe outro prazer em acompanhar uma produção ainda em formação.
Podemos descobrir produtores antes de se tornarem conhecidos. Acompanhar novas regiões. Ver variedades ganhando espaço. Observar estilos sendo ajustados de safra em safra.
O vinho brasileiro ainda possui muito a provar, naturalmente. Nem tudo o que é nacional é bom, assim como nem tudo o que é importado merece a reputação que recebe. O crescimento do setor não elimina diferenças de qualidade entre produtores nem transforma patriotismo em critério de compra.
E essa talvez seja justamente a postura mais favorável ao vinho brasileiro.
Não precisamos defendê-lo simplesmente porque é brasileiro.
Precisamos escolher melhor os brasileiros que merecem ser defendidos.
É exatamente nesse espaço que a curadoria passa a ter relevância. Separar o interessante do apenas correto, o produtor consistente daquele que depende mais da narrativa e a garrafa que realmente vale conhecer daquela que está apenas ocupando espaço em uma prateleira cada vez maior.
Se alguém ainda diz que não gosta de vinho brasileiro, talvez não seja necessário tentar convencê-lo.
Às vezes basta servir a garrafa certa.
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